Nosso jeito torto de ficar

Perdi as contas de quantas vezes senti meu corpo todo arrepiar com uma lembrança aleatória de nós dois. É dessa nossa aleatoriedade quente e eufórica que mais sinto falta. É quase como se eu precisasse disso para viver. Foram poucos meses, como pude me acostumar tanto a isso? A ele…

Saudade da nossa dança sem música e da nossa música totalmente fora do tom em versos inteiros de risadas. A pausa na nossa série preferida para tentar entender que diabos está acontecendo. O beijo fora de hora que fazia tudo girar… Sinto falta dos nossos detalhes e do nosso jeito torto de ficar junto.

Nunca pensei que conheceria alguém que pudesse literalmente completar meus pensamentos. Me encantei pela personalidade dele apesar de ser tudo o que eu sempre evitei. É incrível como somos tão diferentes e tão parecidos ao mesmo tempo. Quando a gente discorda chega a faiscar. Por outro lado é cada assunto que a gente engata e perde a tarde toda falando e falando porque a sintonia é enorme.

A história dele até aqui, o que ele vive hoje e o que ele desenhou para o futuro. Tudo me faz querer ficar para ver de perto. Eu abandono todas as minhas defesas, não quero ir embora. Sinto que o universo não colocou essas duas peças juntas atoa. Não vejo sentido em camuflar essa verdade.

Vou distribuir todas as minhas cartas na mesa. Apesar de saber que um dia após o outro é o melhor remédio para esquecer, não estou disposta a viver mais nenhum dia sem aquela risada rouca e aquele abraço que diz “eu não vou a lugar nenhum”. Eu quero tudo o que ele é. Não quero que seja exclusivo. Só quero que seja real como sempre foi, como eu sei que ele é.

Quando o futuro falar, não ignore

E então ela fita uma parede lisa a procura de alguma coisa errada. Com um leve sobressalto se dá conta de que o erro está nela mesma. Ela tenta encontrar uma maneira de começar mais uma conversa com o papel sem parecer que voltou no passado para outro daqueles momentos em que ela se sentiu perdida. Missão impossível. De novo, uma pontada de vergonha a atinge como um soco no estômago.

Mesmo sabendo que já recorreu às palavras milhares de vezes, ela não consegue evitar o impulso de escrever. Uma tentativa de encontrar a saída do seu próprio labirinto, a despeito da possibilidade de isso não acontecer. Essa é ela: a que escreve e escreve tal qual respira. Ao menos o amor pelas palavras é uma coisa da qual ela tem certeza.

Desviando a atenção da parede sem graça e olhando em volta, ela observa uma fumaça densa cobrindo tudo o que poderia ser outras certezas. Relacionamentos, trabalho, sonhos, eu mesmo… Não satisfeita, ela prende o cabelo em um coque alto, respira fundo e desata a arranhar as palavras no papel. Com isso, ela já nota a presença da tão conhecida esperança de conseguir ver as coisas com mais nitidez. Um parágrafo, dois, quatro, sete… A esperança de uma possível resposta se transforma em nervosismo, que por sua vez vira desespero.

De olhos fechados, ela toma um gole de chá e pondera espantar os seus sonhos como quem espanta pernilongos. De olhos ainda fechados ela cogita a ideia de viver para sempre a vida limitada de um horário comercial. O medo que ela carrega de mim a paralisa tanto que é difícil abrir os olhos novamente e encarar a situação.

Há muito tempo observo essa moça de perto. Perto o suficiente para vê-la acordar todos os dias antes de todo mundo só para ter mais tempo para mim. E longe o suficiente para que a minha magnitude não a assuste. Será que ela vai desistir? Para mim, está muito claro que não. Ela só precisa ser uma formiguinha paciente e um pouco mais esperta. Aliás, ela não tem outra escolha.

Você é uma droga

Sei que não rolou esse lance de “à primeira vista”. No entanto, também não sei o momento em que meus olhos encontraram, com curiosidade, o seu olhar decidido. Uma, duas, três, quatro troca de olhares foi o suficiente para fazer acontecer altas turbulências aqui dentro. Tinha tanta gente e ao mesmo tempo era só você e eu. Eu só tinha olhos para você. Algumas pessoas perceberam.

Na fila do banheiro, minha visão periférica avisou que você finalmente percebeu que era o momento ideal. E se aproximou… Devagar para não assustar, mas rápido o suficiente para esbarrar um pouco forte demais. “Opa, desculpa”.

Queria poder relatar aqui os detalhes daquele diálogo torto e tímido, mas o álcool levou parte de mim. A outra parte foi o seu sorriso que tomou conta de tudo. Eu flutuei… Não lembro o que eu disse, só lembro da sensação de não saber como se anda. Mas eu ainda precisava ir ao banheiro. E então deixei você esperando.

Em menos de 24 horas conheci seu quarto. Minha mãe me mataria se soubesse. Você é aleatoriedade total e eu sou louca o suficiente para fazer o que você quiser. Nada importa muito quando você coloca as mãos no meu rosto e me beija devagar como se fosse a coisa mais importante do mundo. Porque eu sinto que você está ali. Completamente para mim.

Entre o primeiro e o segundo encontro eu notei que o seu jeito marrento combina com a minha falta de paciência. Que a sua pele contrasta junto a minha me fazendo querer que exista eu e você para o mundo inteiro ver. Que a sua habilidade para se expressar é compatível com a minha incapacidade de terminar um raciocínio sem me perder de novo e de novo no seu sorriso.

Você é uma droga. Bagunçar o seu cabelo virou minha melhor distração. Tudo em você é viciante e inspirador. Inexplicável o quanto me excita te ouvir falar. Tenho sorte por não precisar pagar para admirar a sua calmaria, o modo como sorrir enquanto conta uma história e o seu talento para a música. Eu viveria sem grana.

Preciso te ver de novo. Dois encontros estão a milhas de distância de ser o suficiente e a vontade de sentir o seu cheiro já superou qualquer outra coisa. Eu tenho que te ver de novo para te fazer sorrir com as minhas cantadas inesperadas que te deixam vermelho. E te ver dançar mais uma vez. Não importa a música. Você sabe que você é uma viagem? Acho que tô viciada nisso.

Você não precisa se preocupar: o fim é inevitável. Mas prometo que será intenso e que farei você vibrar e vibrar até toda essa overdose valer a pena.